Vestir Consciente

Sempre acreditei que escolher o que vestimos é um ato político, capaz de transformar ideias e opiniões. Mas precisamos refletir, como princípio, sobre como o vestir se conecta ao consumir e a nossas próprias necessidades, colocadas em xeque nesta situação limite que a pandemia há quase dois anos nos impôs.

Não creio que o consumismo deixará de existir em curto prazo — ele faz parte de um sistema enraizado, que segue girando a pleno vapor. No entanto, a própria definição do termo nos ajuda a explicar o tamanho de suas consequências. Consumismo significa comprar exageradamente e sem necessidade.

“A razão pela qual consumimos desta forma, além do que precisamos, é porque o consumo é ideológico em seu núcleo. Somos obrigados a consumir de modos que não são naturais, mas que servem para manter o status quo”. A fala do sociólogo e escritor americano Steve Miles, autor de Consumerism: as way of life ("Consumismo: um meio de vida", numa tradução livre), é a epítome da real necessidade humana de comprar — quem não se lembra das imagens de mulheres glamurosas, com os braços cheios de sacolas, passeando pelos shoppings eternizadas nos filmes de Hollywood?

Recebemos cerca de 6.000 estímulos publicitários por dia, segundo a Neuromedia. Para isso, só em 2021, o setor do neuromercado irá investir, no mundo inteiro, cerca de 667 bilhões de dólares, de acordo com um segundo estudo da Magna, outra agência que acompanha dados da área.

Mas a República do Gana nos lembra que nosso modo de existir na Terra está acabando com os limites biofísicos do planeta — a cada ano, exaurimos recursos naturais em uma jornada de produção para fomentar a necessidade de adquirir produtos, ao final, desnecessários. A própria publicidade já entendeu isso e, hoje, não destaca mais a finalidade do que quer vender, mas, sim, aquilo que ele representa.

Precisamos nos aproveitar desse paradoxo para guiar nossas decisões de consumo. Apesar de ainda incentivar o consumo desnecessário, essa lógica nos ajuda a pesquisar, cobrar e exigir mais transparência nos processos de produção e a querer, como Emma Watson, gritar para o mundo o que pensamos. Podemos consumir de forma mais consciente, optando por produtos que sejam produzidos de forma alinhada com o que queremos dizer.

Quem consome sempre teve papel intrínseco no que é produzido. O mercado funciona por oferta e demanda, e é por isso que nossas escolhas nunca foram tão importantes. A preocupação com o planeta nunca precisou tanto estar "na moda".

De nada adiantam as frases de efeito ou posts nas redes sociais se não praticamos essa preocupação no dia a dia.

Ao adquirir uma peça de qualidade que realmente faz sentido para você, saiba que sua mensagem ecoa por anos. Ao cuidar de sua peça e usá-la ao máximo — aproveitando o tecido, dando um novo uso — você está fazendo um bem coletivo. Quanto mais bem cuidada ela for, por mais tempo você a terá. E menos precisará comprar. O modo como a sociedade se comporta hoje diz ao ambiente como ele será no futuro.

Em uma palestra recente em um evento virtual, o premiado escritor Jared Diamond falou duramente sobre a urgência de atitudes concretas. Como exemplo, lembrou que doenças contagiosas sempre existiram, mas que a presença pandêmica da covid-19 em cinco continentes simultaneamente exige uma resposta global para que não sejamos todos perdedores.



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